Festival Paredes De Coura Edição de 2003.

Os grandes eventos de reggae em Portugal multiplicam-se. Foi sem dúvida um verão de luxo para os amantes do reggae, aquele a que se assistiu. Começou com o Artmix Reggae festival, primeiro festival português de reggae; continuou com as presenças dos Wailers, Mad Professor e Zion Train no Festival Vilar de Mouros; 

Sly & Robbie no Festival Sudoeste; Skatalites no Músicas do Mundo em Sines, e terminou com a noite de reggae, no dia 18 de Agosto, do Festival Paredes de Coura, que contou com nomes sonantes do reggae português, como Mercado Negro e One Love Family, e com duas super-estreias internacionais em Portugal: Alpha Blondie e Sizzla. Dando continuação ao formato do ano passado, que no último dia do festival trouxe até à idílica localidade de Paredes de Coura os veteranos Lee Perry e Mad Professor, a receita repetiu-se este ano, com uma bem sucedida aposta de abrir o festival com um dia dedicado ao reggae, que conseguiu juntar uma multidão de cerca de 20 mil pessoas, certamente recorde de assistência em Portugal, para um cartaz exclusivamente composto de influências rítmicas da Jamaica. As festividades arrancaram cedo, com os Mercado Negro a serem a aposta para a abertura do dia no palco secundário. E a surpresa continua. Parece não importar o local, o público ou a hora, que o empenho de corpo e alma, transforma todos os presentes no 8º elemento deste desfile de emoções que são os Mercado Negro. Comandados pelo genuinamente caloroso e expressivo vocalista Messias, bastaram os primeiros acordes de “Tudo vem de Jah” para que, aos poucos que ansiavam pelo concerto, se juntasse uma interessada multidão, em número elevado para o que é normal em espectáculos de palco secundário. Apesar da curta duração de uma hora, tal foi suficiente para o contágio ser quase imediato, e rapidamente Messias pôs todos a cantar temas como “Atrás do arco-íris”, “Quem é o herói?”, ou o bonito single de estreia “Beija-flor”. Sempre com a bela voz de Liana a acompanhar a harmonia rítmica da dupla Zinho e Ndú (baixo e bateria) e o êxtase solista do guitarrista Brix. As percussões de Gali e as teclas de Don Lanterna, completam a receita, que fez deste mais um bem sucedido desempenho dos Mercado Negro. A terminar, a revitalizada versão de “Jacaré”, habitual imagem de marca do final dos concertos, desta aposta já definitivamente ganha. Mercado Negro está mesmo para ficar e conquistar. Já a noite caía na agradável praia fluvial do Tabuão, quando se deu inicio ao prato principal deste dia dedicado ao reggae. Como entrada, dois conjuntos portugueses cada vez mais habituados às andanças de grandes eventos: One Love Family e Terrakota. Para os primeiros, esta terá sido a grande estreia de afirmação, num festival de grande envergadura como é o Paredes de Coura. Talvez por isso, o espectáculo tenha sido aquilo a que nos tem habituado. Uma solidez sempre surpreendente para as características do grupo, sempre rodeado por uma sensacional magia, que transporta até ao coração de cada um os princípios de raiz da filosofia rastafari e do amor de Jah. Os habituais temas carregados de mensagens conscientes “Live in Peace” ou “Do you Remember”, continuam a destacar-se como trabalhos bem conseguidos, assim como “Styling”, o mais recente, de vertente dancehall e com características muito interessantes. O à vontade e a comunhão com o público, continuam a ser pontos de destaque dos One Love Family, a referir aqui, pela importância que a presença nesta noite pode significar. O único revés a apontar, prende-se com a oportunidade “perdida” de trazer uma maior consistência e diversidade musical (dada a exigência que esta performance pedia), através da adição de uma guitarra solo, que sem dúvida acrescentaria muito ao roots consciente dos One Love Family. Na segunda actuação, os Terrakota optaram por apresentar o seu tradicional desempenho em palco. Ao pegarem pouco pelos seus temas de vertente reggae e apostarem mais nas suas influências de música do mundo, fugiram um pouco ao que se esperava numa noite exclusiva de reggae. E a verdade é que para os que acompanham habitualmente os espectáculos de Terrakota, a repetição começa a substituir a surpresa. Apesar da extraordinária e complexa qualidade, das suas deambulações por vários campos mágicos, da música que se faz por todo o mundo, começa a notar-se a falta de material novo, dado o claro desgaste dos temas habituais. Contas feitas, hora e meio de concerto, onde não desiludiram mas também não surpreenderam. Quem certamente surpreendeu muitos dos presentes, foi o fenomenal Sizzla. Acompanhado pelo seu backup de tour, a mítica Fire House Band (com uma secção de metais de fazer inveja a muitos especialistas na matéria) e o singjay Turbulence, foi este último que deu inicio à dancehall party que se instalou por todo o “anfiteatro” do Paredes de Coura. Numa intro curta, onde apresentou alguns dos seu originais, entre os quais o prometedor “Selassie I”, do seu ultimo registo, recentemente lançado, “The Truth”, Turbulence mostrou ter uma capacidade vocal muito semelhante à de Sizzla e, terão sido muitos os que os confundiram, pelo menos até à entrada de Sizzla em palco. Dissipadas as dúvidas, foi então que Miguel Collins a.k.a. Sizzla, puxou dos seus galões de estrela incontestável do universo dancehall (desde o seu álbum de estreia em 1995, já editou cerca de 23 registos até à data! Com uma média de 4 por ano!!), e entre o ragga e o singjay style, conseguiu “pegar” num público, talvez não muito habituado às sonoridades do dancehall. Mais de uma hora e meia da sua carreira discográfica, passando por temas como “Smoke da Herb”, “Praise ye Jah”; “Ghetto revolution” e “Light of my World”, foi a escolha de Sizzla para exibir o seu trabalho ao público português. Talvez a semelhança (muito dissipada) do dancehall com o hip-hop (estilo muito mais divulgado no nosso país que o ragga jamaicano), tenha sido o responsável pelo deslumbramento que o som de Sizzla causou. Ou talvez o dancehall instrumental, agressivo e cultural de Sizzla tenha verdadeiramente surpreendido aqueles que ali estavam só de passagem para os dias seguintes, mas conclusivamente Sizzla, consegue ser incisivo naquilo que faz, e surpreender tanto os que o conhecem, bem como aqueles que o passam a guardar na memória. Depois de um intervalo moroso chegou a vez da estreia em Portugal da lenda viva do reggae africano, Alpha Blondie. Um misto de génio, dedicação e loucura é a imagem que transmite a expressão dos 50, daquele que continua a ser até à data o artista africano que mais álbuns vendeu por todo o planeta. Com cerca de 20 anos de carreira, Alpha Blondie chegou finalmente a Portugal, por altura do lançamento do seu 13º álbum “Merci”. E que estreia esta de Alpha Bondie. Fenomenal aparato em palco, com mais de 13 elementos (onde se contavam dois, meio guarda-costas meio figurantes de Alpha Blondie); fenomenal presença colectiva, com destaque para as backing vocals (que chegaram mesmo a interpretar temas a solo), tudo fenomenal, inclusive e obviamente Alpha Blondie, que durante mais de duas horas(!!), deliciou o público com todos e mais alguns clássicos que se lembrou de interpretar. Desde os mais antigos “Brigadier Sabari”, Sweet Fanta Diallo”; passando pelos intemporais “Masada” e “Jerusalém”, até pérolas como “New Dawn”, “Peace in Libéria” e “Come back Jesus”, houve até tempo para temas, ainda por conhecer, do referido último álbum “Merci”. Alpha Blondie parecia não se esgotar, mantendo a mesma intensidade ao longo de toda a viagem poliglota que proporcionou aos milhares de fãs que tem em Portugal. A repetir, sem dúvida. Para breve, espera-se… Terminada a maratona, ainda houve tempo para ver o DJ Messias (Mercado Negro), no palco secundário, até altas horas da manhã, a passar grandes clássicos de toda a família Marley, em versões originais e dancehall.Depois do final, de um grande verão, em grande, só se espera que tal seja um prenúncio, para se poder dizer que cada vez será mais difícil classificar qual o melhor concerto de reggae a que se assistiu em Portugal, de tantos e tão bons que começam a ser.

Arigo por : Ricardo Jorge Duarte.