Homenagem a Bob Marley

“Movement of Jah people” é expressão que melhor define o ambiente que se viveu em mais um tributo ao mítico rei do reggae Bob Marley, iniciativa organizada pela I.S.R.& T-Asher Prod. Fez no passado dia 11 de Maio, 21 anos que Robert Nesta Marley deixou fisicamente o nosso mundo, mas ficou mais uma vez provado 

que o seu legado musical, a sua mensagem e atitude continuam bem vivos e presentes dentro de todos os que continuam a perpetuar a sua música e a apreciá-la, principalmente aqueles que se deslocaram ao, agora renovado. salão de espectáculos da Voz do Operário, para prestarem o seu tributo e homenagem aquele que é por muitos considerado como o mais lendário mensageiro de Jah e grande responsável pela expressão internacional que a música jamaicana adquiriu, ao longo dos últimos 40 anos. O cartaz da festa, provavelmente, apresentava-se para muitos como uma incógnita, mas certamente acabou por se revelar uma agradável surpresa, dada a qualidade e diversidade de ritmos apresentada pelos nomes que o constituíam. Jacan-Gad, Ganja-Tree e Jeff de Paris, todos apoiados pelo grupo francês 21st Century Band e um duo de vozes femininas, foram os escolhidos para preencher as cerca de 3 horas de actuação ao vivo, mas já antes das 11 da noite um soundsystem animava o numeroso público, que se distribuía pelas bancadas, pelo amplo espaço da sala e pelo stand de venda de produtos oriundos e ligados à cultura rastafari. Com apenas um único elemento- selector Killer que esporadicamente assumia o papel de toaster com alguns tímidos ragga shouts, o soundsystem serviu plenamente ao propósito de criar um dancehall mood, ainda que por vezes se tenha desviado para outros campos musicais, sendo mesmo possível escutar temas de nomes como Jennifer Lopez, Whitney Houston ou Carlos Santana, mas sempre sobre ritmos dancehall. Para além dos inúmeros temas de Bob Marley que fizeram parte da selecção apresentada, o público mais adepto da vertente dancehall pode vibrar com alguns ritmos mais conscientes, como uma versão de “Jah, Jah city” interpretada por Capleton e Morgan Heritage, o conhecido “Warmonger Man” de Everton Blender, ou uma roots dub style version de “Love of a Woman” de Horace Andy. Entre outros temas do dancehall que variaram entre nomes distintos, desde Luciano até Shaggy, momentos altos da actuação do selecta de serviço foram os extraordinários temas, “It was written” de Capleton com Damian & Stephen Marley e “Complaint” de Buju Banton com Garnet Silk. Resumindo, bastante bom na selecção apresentada, mediano nos poucos rewinds e momentos de toasting, menos bom nas passagens entre os temas. Pouco passava da uma da manhã quando a 21st Century Band entrou em palco, logo seguidos do artista originário da Dominica, Jacan-Gad. Possivelmente, o menos conhecido de todos os que preenchiam o cartaz, a actuação de Jacan-Gad pautou-se por três quartos de hora de boa disposição e muita energia ao som de um roots rub’a’dub ragga style, com algumas influências de reggae africano, sempre muito bem complementado pelas melodias das duas vozes femininas, que acompanharam todos os concertos. A expectativa era grande para ver a segunda actuação da noite, dado o elevado e promissor nível que Ganja-Tree detêm, principalmente por terras francesas. Logan Vale, A.K.A. Ganja-Tree, é natural da Jamaica, onde iniciou a sua carreira na década de 80 ora como vocalista ora como dejjay de vários soundsytems locais, tendo também gravado inúmeros singles para soundsystems Norte-americanos e canadianos. Em 1999 gravou o CD “Inspiration” com o produtos Carl Jackson, antes de continuar a sua carreia em França, onde tem estado desde então, actuando em inúmeros festivais, colaborando com soundsystems e imitindo programas de reggae em rádios. Sem dúvida o mais versátil dos artistas presentes, Ganja-Tree viajou pelos vários estilos do reggae, desde o roots reggae e Lovers Rock até ao dancehall. Com inúmeros rewinds ao longo de todo concerto, para introduzir pelo meio do line-up apresentado, uma série de discursos conscientes apeladores aos princípios mais vigentes na fé rastafariana, Ganja-Tree apresenta ainda uma muito boa presença em palco, sempre em interacção com o público. O verdadeiro destaque da sua actuação vai, no entanto, para o seu talento vocal direccionado para o raggamuffin style, nos temas mais influenciados pelo dancehall. Um nome certamente, a ter em conta para o futuro. Na entrada em palco, Jeff de Paris foi mesmo aquele que mereceu os aplausos mais efusivos da noite, possivelmente por muitos dos presentes se recordarem da sua actuação à precisamente um ano, neste mesmo local, numa mesma festa de homenagem a Bob Marley. Desta vez, para além dos muitos covers de Bob, Jeff de Paris aproveitou também para tocar alguns temas seus, promovendo assim o seu novo álbum de originais. Mas foi mesmo a palavra de Bob Marley que mais ecoou na voz de Jeff de Paris, que abriu o espectáculo com “Redemption Song” cantado em uníssono por todos os presentes, que puderam depois escutar versões dos clássicos da discografia de Bob, de onde se destacaram “No woman No cry”, “Lively Up yourself” e um fidedigno “War/ Get Up stand up”. No entanto o grande momento ainda estava para vir, quando durante o tema “Stir it up”, Jeff de Paris chamou ao palco Jacan-Gad e Ganja-Tree, para uma interpretação do tema, recheada de excelentes improvisações dentro do estilo que cada um deles mais destaca na sua construção musical. Excelente. A cerca de hora e meia de concerto terminou com o retorno de Jeff de Paris ao palco, a pedido do entusiástico público, que se rendeu aos encantos do puro roots de Jeff, enquanto cantava o tema final da noite, “One Love”. O selecta Killer retornou então ao palco para terminar uma grande noite de reggae na Voz do Operário, de onde são de destacar os esforços da organização, que consegui reunir um leque de artistas à altura do evento, a enorme afluência de público, que não defraudou as expectativas, e a grande revelação que Ganja- Tree mostrou ser, aguardando-se um retorno futuro ao nosso país desta promissor nome do reggae actual.

 

Artigo e fotos por Ricardo Duarte