Lee "Scratch" Perry em Portugal

Depois de alguns "falhanços" no passado a nível de afluência, foi com uma enorme satisfação que presenciei na Sexta-feira, 6 de Outubro de 2000 a um momento histórico na (quase) inexistente cena (live) Reggae em Portugal . Lee "Scratch" Perry actuou pela primeira vez por terras portuguesas, inserido no festival LX Meskla que decorreu entre os dias 5 e 7 de Outubro no (agradável e moderno) Teatro Tivoli em Lisboa. 

O evento tinha hora marcada para as 21.30, mas por razões que a organização não explicou, apenas se deu início precisamente ás 22.05 minutos. Surpresa, é a palavra que encontro para descrever o que senti com a prestação segura, positiva e sobretudo versátil actuação dos portugas Cool Hipnoise. Com uma real capacidade de no futuro se (quiserem) tornarem uma séria banda de "strickly" Reggae, realço dois poderosos momentos de puro êxtase melódico, com duas canções puramente Reggae (nº 4 ? e a canção nº 6 ? do alinhamento), solenemente tocadas pela banda e igualmente interpretadas pela voz masculina, Orlando Santos, notório fã de Reggae / Dub. Embora o Dub tenha sido a linguagem musical que predominou na totalidade da actuação, relevo ainda a interessante "cover" de "Come As You Are", dos Nirvana ; e a original "Sofá", que abriu caminho para o cabeça de cartaz, Lee "Scratch" Perry.

No preciso momento em que as luzes do Tivoli foram ligadas para se efectuarem algumas alterações no palco, Mad Professor já se encontrava na mesa de mistura, a afinar os últimos detalhes para a actuação de Perry e ainda a promover o alinhamento da sua mais recente criação, "Trix In The Mix". Ás 11.38 minutos as luzes apagam-se, um baterista, um baixista, e um incansável teclista orientados pelo "sound engineer" Mad Professor " entram em cena com um instrumental. Com um "good evening" convertido em Dub, entra a mítica figura da história musical Jamaicana, The Upsetter - Lee "Scratch" Perry, mentor de Bob Marley, a figura que por pressões do próprio sistema, incêndiou o próprio estúdio, Black Ark, em 1979 (Perry refere em entrevistas que enquanto "voava" sob efeitos da "Ganja", eram-lhe roubadas as "Master Tapes" para posteriormente serem vendidas á Island Records de Chris Blackwell, mas essa é outra história...) . Perry entrou como um Rei, de coroa e um manto real, surpreendeu o sobre-lotado Tivoli com as suas roupas e dinamismo excêntricos, provocando uma tal histeria, que todo o público se levantou para assistir ao longo de quase duas horas uma incrível capacidade de frenesim, (Perry já conta com sessenta e quatro anos !!!), num Dub em alguns momentos Pop, contagiando mesmo aqueles que assistiram e ouviram Lee Perry pela primeira vez, não é verdade Rui ? A plateia estava rendida á lenda viva, fãns acenavam com posters do próprio e bandeiras de Bob Marley, duas raparigas totalmente eufóricas subiram ao palco para dançar com Perry, um momento particularmente bombástico, após uma saída do palco algo curiosa, Perry reentra segundos depois com uma ponta de "Ganja", interpretando ao mesmo tempo um dos momentos altos da noite, "Soul Fire" - "...Light My Fire..." . O público não se continha com o transe, o Upsetter em género de "agradecimento" ofereceu á assistência a ponta de "Ganja" com a qual já tinha dado alguns "spliffs", contribuíndo ainda mais para a incrível onda de "fumo" que inundava o Tivoli. Outro dos momentos altos da festa, foi a interpretação de "Curly Locks" (canção composta por Perry nos anos 70, popularizada por Junior Byles). Poderia ser um espectáculo para toda a noite, a multidão estava totalmente rendida, Perry saíu de cena á 1.05 minutos, despedindo-se com um natural - THANK YOU convertido em Dub. A banda manteve-se em palco mais alguns minutos, a mostrar os dotes num instrumental totalmente "inundado" de efeitos por Mad Professor.

Depois do público já ter abandonado o Tivoli, seguiu-se uma (incrível) conferência de imprensa numa sala adjacente, em que Perry depois de toda aquela "performance", manteve a boa disposição, assinou CDs e posters com a própria fotografia, e ainda respondeu ás perguntas (em vários momentos de forma evasiva), que lhe eram colocadas pelos presentes (que não eram muitos).Uma das questões que lhe coloquei prendia-se com o facto de Perry receber ou não algumas "royalties" da Trojan Records e Island Records, com uma notória irritabilidade, Perry respondeu que tinha feito um acordo com a Trojan e a Island mas que não tinha recebido qualquer dinheiro.

Retenho agora algumas das frases que na minha perspectiva marcaram a conferência de imprensa :
       ...the heart is the only thing true and clean...

       ...Bob Marley have been the best thing that happen in my life...

       ...Reggae is for the poor, Dub is for righteous people...

Espero que este tenha sido o trampolim para as entidades organizadoras de espectáculos entenderem que com uma boa organização, uma boa campanha de Marketing, conseguem realizar-se eventos Reggae de qualidade em Portugal.

Grande respeito para Lee Perry, Mad Professor, Rui Silva e ao João Valente.

Paulo Matos, Reggae Portugal Outubro 2000